sábado, 14 de janeiro de 2017

Privatização do Saneamento?


Sou empresário. Portanto, nada contra a iniciativa privada. Contudo, jamais serei irracional a ponto de imaginar que a livre iniciativa seja uma panaceia. Se assim o fosse, tudo estaria resolvido nos países como a Inglaterra. E a propósito vale sugerir assistir a I, Daniel Blake, em exibição nas telonas, para entendermos o quanto falta caminhar para que essa falsa ideia seja verdade.

No caso das empresas estaduais de saneamento fico à vontade para opinar pois tendo passado 49 anos de minha vida profissional numa das maiores Empresas Estaduais de Saneamento do Brasil, adquiri conhecimento prático sobre sua importância para a sociedade, especialmente para os menos favorecidos, as pessoas que vivem (se é que podemos atribuir esse termo à condição imposta aos que habitam as comunidades e favelas espalhadas por nossas cidades ...) incrustradas no tecido social que habitamos, e que chamamos de Cidade.

Soma-se a essa experiência prática, a vivência com ilustres acadêmicos e personalidades do setor, pelo convívio por todas as partes do Brasil através da ABES Associação Brasileira de engenharia Sanitária e Ambiental, em que sempre militei como o faço neste momento ao compor sua Diretoria Nacional.

Sem me considerar o dono da verdade ou a última palavra, simplesmente me afasto de ser um homem ansioso para interpretar à luz da história e com o apoio da cultura as manchetes de cada dia. A de hoje em O Globo informa: Oito estados começam a privatizar o saneamento ... BNDES abre licitação para contratar projetos de desestatização de seis empresas".

Ora, basta conhecer o curso do rio acima (para usar um jargão apropriado ...), reavivar um pouco de nossa memória recente para lembrar o processo adotado com os Bancos estaduais. Um por um, como um castelo de cartas, foi caindo nessa mesma lógica.

Ocorre que privatizar dinheiro, leva ao resumo da ópera que temos hoje. Já privatizar saneamento, requer muito mais cautela e debate com as pessoas que serão afetadas diretamente para que, em nome das gerações futuras, atitude que alguns pretendem jamais seja uma aventura privatizante.

Ontem fizeram aos bancos estaduais; hoje pretendem fazer às empresas estaduais de saneamento; será que as universidades serão o efeito Orloff de amanhã?

E para concluir estes pensamentos, me socorro do poeta niteroiense Eduardo Alves da Costa em No Caminho, com Maiakoviski:

Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada... Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa., rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

Essa é a minha intenção: mostrar minha indignação com a falta de clareza no que alguns, que se consideram donos do poder pretendem, sem jamais calar-me, sem permitir que tirem minha voz.

É preciso que se entenda com absoluta clareza qual o curso que se pretende dar com o desvio do rio abaixo porque, caso contrário, num futuro bem próximo veremos os professores (e talvez só eles ...) clamarem contra a falácia das soluções mirabolantes que só satisfazem a alguns poucos.

Joper Padrão